Devoção pelas palavras: 'O Céu da Língua', de Gregório Duvivier, lota três sessões no Guairão
04/04/2025
(Foto: Reprodução) Espetáculo está no Festival de Curitiba e foi um dos primeiros a esgotar os ingressos. Alta procura demandou uma sessão extra, que também vendeu todas as entradas. Ator se apresenta nesta sexta (4). Gregório Duvivier, em Céu da Língua - Festival de Curitiba
Demian Jacob
Gregório Duvivier é frequentador assíduo do Festival de Curitiba. Todos os seus trabalhos fizeram parte da programação do evento. O monólogo "Sísifo", inclusive, teve estreia nacional na edição do festival de 2019.
"O Festival de Curitiba é o mais importante do Brasil, da América Latina, talvez até do mundo. Neste período a cidade vira o epicentro teatral do planeta", comenta o ator, que está trazendo para esta edição a comédia poética "O Céu da Língua".
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A peça, que aborda a presença quase invisível da poesia no cotidiano, terá duas apresentações na noite desta nesta sexta-feira (4), sendo uma delas sessão extra. O espetáculo, realizado no Guirão, foi uma das primeiras atrações que vendeu todos os ingressos.
Em entrevista ao g1, Gregório falou sobre o espetáculo, sua obsessão pela língua portuguesa, poesia e humor. Ele ainda deu dicas de livros. Confira abaixo.
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Céu da Língua - Festival de Curitiba
Demian Jacob
Como surgiu este projeto?
"O Céu da Língua" surgiu da minha paixão pela língua portuguesa e pelas palavras. Essa peça vem do prazer de brincar com as palavras e com os sentidos delas. Com as tensões e intenções que elas escondem. Tem palavra que tem a cara do que ela é, outras não. O humor e a poesia são formas de fazer essa degustação. Essa minha obsessão é antiga, acho que a primeira memória da minha vida vem do espanto com as palavras.
Me lembro de ficar abismado com alguns sons e ficar repetindo eles o dia todo. "Umbigo", por exemplo, eu achava engraçado. Chamava de "umbligo", "umbingo". Antes de brincar com o umbigo, eu brincava com as palavras. Me lembro de achar o máximo "volante", meu irmão falava "rolante". Eu achava que era mesmo um rolante, porque ele rolava. Acho que a minha obsessão pela língua portuguesa veio junto com a vida. Eu nunca soube existir em outra língua, só existi nela. Existir para mim está indissociável de existir numa língua. Acho que a gente existe graças à língua.
Entendo as palavras como pessoas vivas, que nascem, mudam de personalidade e morrem. "Irado", por exemplo, é uma palavra que começou com uma vida braba, triste e foi ficando mais alegre, até ficar eufórica no fim da vida. Hoje em dia, irada é uma pessoa eufórica. Pensar as palavras com trajetórias de vida, com histórias de superação, minha obsessão com as palavras vem daí, de compreendê-las como seres com personalidade cambiante como nós. Elas são mais que ferramentas, para mim são como gente. Tenho respeito e um temor por elas e, ao mesmo tempo, uma intimidade como eu tenho com velhos amigos.
Quando foi que a poesia te pegou?
Na minha primeira infância, acho que toda criança gosta de poesia, toda criança é poeta, e a gente vai deixando de ser, a gente vai desaprendendo a poesia ao longo da vida.
Olha que bonito o que o filho de uma amiga falou outro dia: “Mãe, veja os 'insertos' no quintal”. Os "insertos" eram os mosquitos, as moscas. Ela simplesmente confundiu ou botou por acaso o R. Pode ter feito uma poesia, não dá para saber, porque para a criança o erro, a poesia, a brincadeira e o humor se misturam. A criança tem uma relação muito mais lúdica com a palavra, mesmo errando, acaba caindo num poema.
Piada e poema andam juntos no trabalho. Como foi a construção dessa dramaturgia?
Sim, acho que piada e poema são coisas parecidas, nos dois casos surgem do espanto de um olhar. De um olhar novo, um olhar que acorda a palavra, que acorda o mundo. Então, a busca do palhaço e do poeta é a mesma, é uma busca pelo primeiro olhar, é tentar ver o mundo pela primeira vez de novo. Eu adoro esse lugar onde a poesia e o humor se cruzam.
A construção da dramaturgia foi feita por mim junto com a Luciana Paes, diretora do espetáculo, que também é atriz. Fomos construindo a peça juntos, ela tem a mesma obsessão que eu pelas palavras, trocamos entre nós palavras novas e palavras velhas, as que parecem novas e as novas que parecem velhas, damos novos sentidos para palavras antigas, nomes e sons na nossa língua e em outras. A Luciana é uma grande poliglota e uma cantora também que entende e ama a música. E eu também sou obcecado por música. Temos algumas obsessões em comum e a peça é fruto disso. Foi sendo construída a partir desse nosso diálogo.
E o papel da música no espetáculo?
A palavra pode ser escrita, usamos um projetor com esta função de dar esse suporte visual; pode ser falada, e eu estou ali para isso, e ainda pode ser cantada. Então entra a música e o músico Pedro Aune, responsável pela direção musical e a execução da trilha do espetáculo. No palco temos as três formas da palavra: a palavra som, a palavra imagem e a palavra sentido. São as três encarnações da palavra. A trilha foi sendo composta em conjunto, inclui canções originais e clássicas consagradas.
E o título da peça, "O Céu da Língua"?
A nossa língua é cheia de metáforas mortas, o tempo todo usamos as metáforas sem percebermos. A primeira pessoa que falou o "céu da boca" era um poeta. O céu da língua é a boca.
Lembrar que temos um céu acima da nossa língua é uma maneira de elevarmos a nossa língua ao céu da boca. Graças à língua podemos ir ao céu. Os deleites que a língua nos proporciona nos levam ao céu.
Existem certos poemas e palavras que pertencem ao céu da língua. A peça é uma homenagem à nossa poesia e a todos que habitam esse céu, esse olimpo da língua portuguesa, para mim, Camões, Caetano Veloso, Vínícius de Moraes, Orestes Barbosa, Clarice Lispector, Cecília Meireles, Mário Quintana, Machado de Assis, tanta gente viva e morta.
O que te instiga na língua portuguesa?
A nossa língua conjuga verbo no passado, no presente e no futuro. Só isso nos torna especiais. Temos vários passados. Não é toda língua, por exemplo, que tem masculino e feminino. Temos também diminutivos, criamos palavras novas dentro de outras, falo sobre tudo isso na peça. Amo cada detalhe da nossa língua, sou bastante ufanista.
Amo também as influências da nossa língua. A árabe, por exemplo, presente em almofada, açúcar, alvoroço e tantas outras; as línguas africanas que nos deram tantas palavras, como xodó, dengo, caçula, cafuné, babá, bunda, marimbondo, camundongo; do tupi veio a farofa, mandioca, abacaxi e chulé, palavra espetacular que não existe na maioria das outras línguas.
Alguma dica de livro que converse com a proposta do espetáculo?
Indico o livro de um curitibano genial, Caetano Galindo, que acaba de lançar "Na Ponta da Língua", que li em dois dias, e que escreveu também "Latim em Pó", um clássico. São livros interessantes e inteligentes sobre o nascimento da nossa língua e a sua história.
Outra dica é "O Ódio pela Poesia" (Bem Lerner), que investiga a natureza da aversão pela poesia, o autor diz que é saudável amar a poesia odiando-a.
Qual a tua expectativa para o festival?
Amo esse festival, apresentei todas as minhas peças nele. É o mais importante do Brasil, da América Latina, talvez até do mundo. Neste período, Curitiba vira o epicentro teatral do planeta.
Admiro como a cidade é bem servida de teatros! Meço uma cidade pela quantidade de teatros, Curitiba tem muitos e cuida dos seus teatros. O festival faz com que a cidade se torne o centro do mundo porque o teatro é uma forma de pensar o mundo.
Teatro é a invenção do humano. Promover um festival é reinventar o humano. É como celebrar a presença humana em volta da fogueira ancestral, recriar a humanidade, sonhar novos futuros e celebrar a nossa cultura em toda a sua vastidão. Teatro reúne todas as outras artes, festeja todas as artes e no momento presente. É um chamado para a presença.
🎭 33º Festival de Curitiba
Data: de 24 de março até 6 de abril de 2025
Programação: espetáculos teatrais, estreias nacionais, dança, circo, humor, música, oficinas, shows, performances e gastronomia.
Valores: de R$ 0 até R$ 85 (mais taxas administrativas)
Ingressos: No site e bilheteria física (Shopping Mueller)
Verifique a classificação indicativa e orientações de cada espetáculo.
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